quarta-feira, 30 de setembro de 2009

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Das frases feitas. O rapaz, apaixonado, diz à namorada, pelo telefone: “O caminho que me leva à tua casa tem a distância de uma eternidade”. Tudo existe no mundo para caber num poema. Disso sabem os que se apaixonam, os que adoecem. Mas não há poema que resista à realidade dos dias que passam, dos dias que sempre vêm. O mundo real é cheio de vazios invisíveis a olho nu, como as partes mínimas do átomo. Tempo, o melhor remédio.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

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Da solidão. “Solidão é o caminho para o qual o destino quer atrair os homens. Solidão é o caminho que o homem mais teme. Lá estão os terrores, as serpentes e sapos. Lá nos espreita o terrível”. Palavras de Hermann Hesse, em Sobre a guerra e a paz. Mesmo os peregrinos e os eremitas, que aparentemente buscam a solidão, na verdade, fogem dela. É que, indo ao deserto – a procura de Deus, ou de si mesmos –, eles procuram por aquilo que é maior do que eles mesmos, do que todas as multidões. E o que é mais, para você, do que você mesmo? Depois de você, e para quem tem fé, só Deus. Aí cabem todas as multidões. O amor à solidão é, assim, um contra-senso
. No final, todo mundo está só. Os terrores, as serpentes, os sapos e o terrível são inevitáveis.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

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Das aspirações cognitivas. Há, na moderna filosofia da lógica, uma acirrada polêmica sobre os pensadores chamados “portadores da verdade”; ou seja: se as sentenças – ou enunciados, ou proposições – nas quais eles se baseiam são ou não são empiricamente válidas. O termo “empirismo lógico” foi dado ao grupo de epistemólogos do Círculo de Viena. Sob a liderança de Moritz Schlick, tais pensadores eram fortemente influenciados pelas filosofias de Bertrand Russell e Ludvig Wittgenstein. No grupo, Rudulf Carnap ganhou destaque como um dos seus membros mais eminentes.
De Carnap, aqui, nos interessa a sua análise do significado de certas palavras que, adotadas pelos “empiristas clássicos”, não têm valor de verdade. O empirismo lógico procurou, sob muitos aspectos, distinguir-se do empirismo clássico de John Locke e de David Hume, por exemplo. Foi assim que os empiristas lógicos procuraram interpretar as coisas que podem ser conhecidas não somente em termos lingüísticos, ou seja, falando não de pensamentos, de juízos, de crenças, et cetera, termos ligados ao jargão psicológico que “tradicionalmente a teoria do conhecimento dos filósofos modernos empregou”, diz Luiz H. de A. Dutra. Num texto de 1959, intitulado: The elimination of metaphysics through logical analysis of language, Carnap diz que, se dissermos: “César é um número primo”, a sentença estará de acordo com as nossas regras gramaticais, mas é destituída de sentido lógico – uma vez que o predicado “número primo” não pode ser atribuído a pessoas, e César é, até onde consta, o nome de uma pessoa. Partindo daí, Carnap se opõe à linguagem dos metafísicos, linguagem essa que é, em seu sentido mais elevado, destituída de sentido – conforme ocorre às palavras “nada”, ou “nadificar”, bastante empregadas na filosofia de Martin Heidegger.
Carnap entende que, partindo da partícula de negação (“não”), Heidegger chega ao substantivo “nada” e, desse, ao verbo “nadificar”, empregando-o em relação à “chuva”, ao “chover”. Acontece que a chuva é algo do mundo extralingüístico – como também o “chover” –; ao contrário do “nada” ou do “nadificar”, que não correspondem a coisa alguma.
Para Carnap, os metafísicos são vítimas de um certo “enfeitiçamento da linguagem”. É esse enfeitiçamento que os leva a tomar, como existentes (ou reais), coisas que, não correspondendo a nada, correspondem a um termo da linguagem. É assim que, por exemplo, alguns pensadores falam sobre “princípio”, “ser”, “Absoluto”, “Deus” ou “amor”... Termos que se encontram, todos, dentro dessa classificação – ou seja: não correspondem a coisa alguma e, assim sendo, são destituídos de significado. Mas, antes que os teólogos condenem Carnap aos “quintos dos infernos”, vejamos o que Dutra nos diz: “Se Carnap entende que tais termos são destituídos de significado porque não correspondem a coisa alguma, isso mostra que ele entende o significado de um termo como aquele objeto, ou aquela coisa à qual o termo corresponde, ou aquela coisa denotada pelo termo”. A diferença entre as palavras “amor” (não-significativa) e “pudim de chocolate” (significativa), portanto, reside somente no fato de que o pudim de chocolate é um dado a posteriori, enquanto amor é uma fala a priori – embora Carnap não empregue tais termos.
“Deus”, “amor”, et cetera, são termos metafísicos que podem possuir um significado emotivo, podendo ser expressos mediante a atitude poética de quem neles acredita. Decorre daí que, a teologia, pode ser, no máximo e por respeito aos teólogos sérios, uma teopoesia; uma fala do que tem fé, e ama o objeto da sua fé - o Grande Desconhecido. A diferença entre os poetas e os teólogos está no fato de que, os poetas, não têm aspirações cognitivas, enquanto os teólogos, sim. Mas, para Carnap, a metafísica (ou a teologia) não tem significado cognitivo. O amor, como Deus, cabe apenas e tão somente na poesia, na linguagem poética.

sábado, 26 de setembro de 2009

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Dos ciúmes e do sentimento de posse. O romântico, fatalista, pensa depositar no outro tudo o que é seu; inclusive a sua própria vida. Na verdade, deseja mesmo é que o contrário seja feito. Esse amor, como aquele que aparece na dialética do desejo, na Fenomenologia do Espírito, de Hegel (cf. 2, 18), não deseja apenas o outro, deseja o desejo do outro. Li, não sei onde, que o casamento de Nicolas Cage acabou por causa de uma exigência tola que sua mulher, Lisa Marie Presley (filha do Elvis), lhe fizera: que ele se livrasse de suas coleções de HQs (revistas de histórias em quadrinhos). “Ela não queria somente o meu corpo”, disse ele, “queria também a minha alma”.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

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Dos espinhos e da convivência pacífica. “Num dia frio de inverno, os porcos-espinhos se aconchegaram uns aos outros, para ficarem quentes e não morrerem de frio; mas logo sentiram as picadelas dos outros e se afastaram. A necessidade de calor voltou a aproximá-los, mas de novo os espinhos os separaram. Aproximaram-se e afastaram-se à medida do seu desconforto, até que encontraram a distância ideal que lhes fornecia o máximo de calor e o mínimo de sofrimento”. Receita de Schopenhauer para a permanência dos relacionamentos amorosos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

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Da eterna guerra dos sexos. Há uma música do paraense Pinduca (Aurino Quirino Gonçalves), aclamado como “o rei do carimbó”, que eleva a mulher a um nível de astúcia e sagacidade que torna-a capaz de enganar o próprio Diabo. Diz assim: “O rico e o pobre são duas pessoas. / O soldado protege os dois, / O operário trabalha pelos três, / O vagabundo come pelos quatro, / O advogado defende os cinco, / O confessor condena os seis, / O médico examina os sete, / O coveiro enterra os oito, / O Diabo carrega os nove / E a mulher engana os dez”. O enganar ou o ser enganado fazem parte de um jogo sentimental complicadíssimo, em que um ou outro é ativo ou passivo, a depender da situação (Situation) - termo que, aqui, e conforme introduzido por Jaspers, tem haver com a relação do homem com o mundo dado, sentido, na medida em que este o limita, condiciona e, ao mesmo tempo, fundamenta e determina as suas possibilidades. Conforme consta na sua Psychologie der Weltanschauungen: “A situação externa, apesar de tão mutável e diferente, segundo o homem ao qual se aplica, tem a seguinte característica típica: para todos tem duas faces, incita e obsta, inevitavelmente limita e destrói, é ambígua e insegura”. É que, no caso amoroso, o inconsciente de cada um faz com que a procura do pai (ou da mãe) ideal para os seus filhos – mesmo que isso seja a última coisa que passe por sua cabeça – vacile ante as opções, mas o freio moral limita os caminhos dessa procura. O único freio que há contra esse carnaval é a moral secular (a cristã, principalmente), a idéia de moral, ou sua imposição social, consensual; o homem e a mulher não são animais de um parceiro só, como bem poucos bichos são. Mas, também essa moral - e mesmo a que alguns mencionam como “lei moral interior” (Lewis), ou moral autônoma (Kant), não cristã (da razão somente, pura) - é um mecanismo natural da Vontade, para que haja algum equilíbrio e, assim, sejam assegurados os meios de seus genitores, gerados os filhos, somarem forças para criá-los e, neles, por meio deles, manterem-se como são, mas como “cópias melhoradas” (cf. 1, 38). Ainda assim, e principalmente antes da gestação, a natureza joga indivíduos contra indivíduos na seleção do mais apto a gerar filhos perfeitos, saudáveis e aptos a continuarem no jogo. Daí que as mulheres não são “amigas dos homens”, e vice-versa, nem podem sê-lo – pois que o jogo precisa do rival, aquele ou aquela a quem se deve derrotar. Derrotar = subjugar pelo sexo; a violência da libido, do coito - e não por acaso se fale, com relação ao objeto amado, em conquista. Daí que, por vingança ou jocosidade, nem o Diabo, n’O rico e o pobre, do Pinduca, escapa da astúcia feminina. Também a sabedoria popular reconhece nos homens essa imagem de capeta, trovando-os de modo análogo à idéia do próprio Coisa-Ruim: “Que os homens são uns diabos / não há mulher que o negue. / Mas todas elas procuram / um diabo que as carregue”, diz uma cantiga popular de Pernambuco. A guerra dos sexos não acaba nunca porque, no seu âmago, na sua essência, está a sobrevivência da espécie e a procura pelo melhor para o futuro – que são os filhos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

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Da inautenticidade. “Cada um é o outro, e ninguém e si mesmo”; dito por Heidegger, tratando da inautenticidade. Isso resume tudo o que foi dito em “Da dialética dos desejos”.