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Os ensaios, textos, contos e fragmentos aqui apresentados compõem o livro "Divagações sobre as burrices do amor", de Antonio Patativa. Boa leitura!
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De um livro de Jacob Needleman e do vício intelectual. O celebrado livro de Jacob Needleman, A little book on love, de 1996 (traduzido no Brasil como “Sobre o amor”), traz, na edição portuguesa, o subtítulo: “Um estudo investigativo do filósofo contemporâneo mais lido nos EUA”. E eu penso, com o livro em mãos: “Quem disse que os americanos mais lidos são boas referências para qualquer coisa que não o pragmatismo e a arte de ganhar dinheiro? Capitalistas filhos da ....!” E penso mais: “Quem disse que há filósofos relevantes nos Estados Unidos?” Tento lembrar de nomes realmente importantes; mas só me vêm à mente, depois dos gregos, dos alemães, dos franceses (e boa parte desses melhor enquadrados na categoria de romancistas), e aqui e ali, alguns ingleses, os nomes dos pragmáticos C. S. Peirce e William James. Os americanos, desde muito, se especializaram em fazer compêndios, sistemáticas. Mas tanto a filosofia quanto a teologia requerem o ócio (otium, que é o oposto de negotium: “negócio”, “ocupação”) - coisa que eles condenam. Não por acaso, as piores das piores teologias e as piores das piores heresias modernas (levando-se em consideração a teologia mais ortodoxa, ou a reformada) são obra e arte dos sobrinhos do Tio Sam.
Não nego que, nos EUA, exista uma enormidade de filósofos brilhantes e teólogos capazes e bem intencionados; mas eu falo, aqui, de originalidade essencial, “sem a qual o mundo não seria a mesma coisa”: como o que foi feito por Schopenhauer (e Darwin e o budismo estavam aí, por trás, como a trama onde a bordadeira tece a sua arte), por Nietzsche, por Heidegger, et cetera. Americanos! Time is money! É por isso que dou o maior dez aos três contos de Arturo Gouveia (“A primeira porta”, “Pelos pobres de Tegucigalpa” e “Mais-que-perfeito”), reunidos no capítulo “Thanatos também te contempla”, do livro Santíssimas trevas, de 2008 (segunda edição). “Ok”; é verdade que Jacob Needleman (66 anos), de acordo com uma entrevista que deu à revista Super Interessante em julho de 2001, anda por aí apregoando a máxima de que o “dinheiro não traz felicidade”. Também sei que ele tem muito dinheiro; e ganha outro tanto como professor de filosofia na San Francisco State University, atuando como consultor nos campos da psicologia, educação, ética médica, filantropia e negócios (Sócrates riria muito de tudo isso). Sei, por fim, que ele ganha ainda mais dinheiro vendendo os livros que ensinam que não é preciso ter dinheiro para ser feliz, e que o amor é a salvação do mundo, e o respeito ao Outro, e isso e aquilo... Coisas que cabem bem no vício de alguns intelectuais que mantêm o mundo no mesmo, dizendo o que as pessoas já sabem, mas que querem ouvir, do modo que não sabem dizer.
O “estudo investigativo” de Needleman não é mais do que uma sistematização – bastante superficial, é bom dizer – sobre o tema do amor, e sempre condicionando-o ao amor romântico que tem seu modelo exemplar no “Hino ao amor”, do apóstolo Paulo - que ele transcreve por inteiro, reverenciando e utilizando-o no capitulo final (capítulo 12, “A prática do amor”) e na Conclusão, citando trechos inteiros, numa pálida tentativa de interpretação que não merece o nome de “hermenêutica”. O capítulo 13 da primeira epístola de são Paulo Aos coríntios, nada tem a ver com “amor romântico”. O “Hino ao amor”, em Needleman, mantém-se no status de modelo de conduta amorosa. E assim o vício intelectual fica assegurado; e o engodo secular mantém-se inalterado. Mas esse status do “Hino ao amor” é lugar comum na obra de muitos filósofos, e Needleman não é exceção entre tantos – confirmando a nossa crítica de que o seu Sobre o amor, não é mais que “mais do mesmo”. Vício intelectual é, às vezes, má-fé.
É compreensível que filósofos cristãos, mesmo os existencialistas (como Karl Jaspers, Gabriel Marcel, BJ Kumar Christie, e outros), mantenham tal vício – pois lhes é bastante conveniente –; mas é inadmissível que se fale tanto sobre “os cem nomes do amor” e não se defenda que ele é um só, e que pode ser simplificado numa única palavra: Vontade, Vontade de vida. O romance, a trato cortês, a conquista e tudo o mais que envolve a moral cristã e a moral ocidental, relativa ao sexo, à procriação, é mera maquiagem que visa encobrir o “feio” que é o coito, que tem sua prática, íntima, guardada para a privacidade das câmaras, das quatro paredes. O coito público é punido e condenável como atentado ao pudor.
O capítulo XI, “O amor”, no livro Kleine Schule des Philosophischen Denkens (“Introdução ao pensamento filosófico”, 1965), de Jaspers, é também “mais do mesmo”. Só o amor elevado à categoria do amor pelo feio (ágape), poderia fazê-lo concordar com Kierkegaard: “Kierkegaard tinha razão ao dizer que a mulher se torna mais bela com os anos”, ele diz; concluindo, porém, que tal beleza “só pode percebê-lo o homem que a ama”. Não há mistério: é uma beleza enxergada pelos olhos do ágape cristão, ou do bhakti (submissão ao Outro), indiano. Mas aí, tanto em um como em outro conceito, o divino está no Outro, que transforma-se em “meu próximo”, pois também imago Dei, como eu; ou parte do próprio divino: bahkti. Em um dos parágrafos finais do capítulo XI, Jaspers revalida a moral cristã e o amor ágape como modelos, dizendo: “Se houvesse alguém capaz de viver na clarividência do amor, ser-lhe-ia aplicável o dito de Santo Agostinho: ‘ama e faze o que quiseres’. Como, porém, somos todos homens, sujeitos ao engano e à cegueira, expostos à ação de forças hostis ao amor, não podemos viver sem restrições. Todo amor que, por exemplo, transgrida os Dez Mandamentos, já não será amor, mas, subjugado por paixões estranhas, estará utilizando mentirosamente o rótulo do amor”. O inverso do dito, é bem verdadeiro. E Jaspers, definitivamente, não foi justo com o bispo de Hipona, interpretando-o assim.
Inadmissível, por fim, que tanto Jaspers quanto Needleman não mencionem Schopenhauer em suas investigações sobre o amor. Needleman chega a falar de Rilke, utilizando-se de longas citações do poeta alemão – aquelas que louvam o amor conforme o modelo cristão, ou como “resultado do esforço”, do “querer amar” –, mas não menciona que ele (Rilke), dentre outras, teve um amor impossível com Lou-Salomé (que só conseguia ser fiel a si mesma), que compartilhava das idéias de Nietzsche (com quem também teve um caso até hoje mal explicado), e que foi aluna de Freud (ateu declarado), e que todos esses aí são discípulos, de um modo ou de outro, de... Schopenhauer.
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Das razões pelas quais se mata, se vive, se morre. Em O juiz e seu carrasco (1950), do suíço Friedrich Dürrenmatt, o comissário Bärlach e o policial Tschanz entram na casa do Sr. Gastmann, mas quem eles encontram e interrogam sobre o assassinato do tenente Schmied, é o conselheiro federal von Schwendi, que não lhes ajuda tanto. Decidem ir até o policial da aldeia de Lamboing, Jean-Pierre Charnel, que parecer saber alguma coisa sobre o Sr. Gastmann. Assim, numa estalagem onde se encontram e bebem vinho branco com pão e queijo, Bärlach pergunta a Gastmann:
- O que faz esse Gastmann, Gastmann? – continuou interrogando.
- Um monsieur très riche – respondeu o policial de Lamboing, entusiasmado. – Tem dinheiro como água, é très noble. Dá gorjeta a minha fiancée – e apontou para a garçonete, orgulhoso – comme un roi, mas não com a intenção de querer alguma coisa dela. Pas ça, non.
- Qual é a profissão dele?
- Philosophe.
- O que quer dizer isso, Charnel?
- Um homem que pensar muito e nada fazer.
O juiz e seu carrasco, em síntese: o ato de matar pode ser uma obra de arte, o de morrer, não - é uma coisa a se pensar. Helena, me acredite: nunca se mata ou se morre se não for por amor – e isso não tem qualquer conotação filosófica. Mas, refletir sobre o porquê de não morrer, sim. Daí Camus, em O mito de Sísifo (1942) colocar o suicídio como a única questão filosófica realmente séria: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério”, ele diz: “é o suicídio”. E argumenta:
Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. [...]
Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das ações a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas idéias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos ― das interrogações.
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Dos desejos e dos demônios. Freud é, com justiça, o pai da psicologia. Mas, verdade seja dita, sua maior contribuição à nova “ciência” foi o fato de ele, em pleno regime vitoriano, haver colocado o sexo como motor que engendra os processos psíquicos. Tais processos, externos, escondem-se para além do Ego, no Id, que é como um “segundo eu”, sob a fachada deste outro, primeiro da experiência mais imediata. Dificilmente o leitor de Freud, ao menos no que diz respeito às suas tentativas de dar um status científico às suas análises de pacientes neuróticos, não se chocará ao ver que o velho austro-húngaro fantasiou curas, maquiou resultados e, simplesmente, mentiu. “Uma das razões pelas quais os dados da psicanálise pareciam tão persuasivos às vezes é que Freud, seduzido por suas próprias teorias, tinha concebido um método que, em uma extensão considerável, permitia-lhe criar seus próprios dados. Em vez de teorias baseadas em observação, as ‘observações’ às vezes eram derivadas da teoria”, afirma Richard Webster, em Freud (2003), livrinho da coleção Grandes Filósofos, publicado no Brasil pela editora da UNESP. Na página seguinte, Webster afirma que, “na maioria dos casos, os sintomas [como no famoso caso de Anna O.] são construções do próprio Freud, nascidas de sua própria imaginação teórica. É somente após criá-los dessa maneira que Freud, usando estratégias de interpretação engenhosas e infinitamente flexíveis que ele próprio inventou, raciocina de modo retrospectivo de forma que crie uma série de elos artificiais derivados dos sonhos, associações e lembranças de seus pacientes”; e, mais adiante: “A crença de Freud de que estava construindo uma ciência genuína é crucial para qualquer entendimento da maneira pela qual a psicanálise se desenvolveu. Foi seu implacável e redutor cientificismo que, somado à sua compulsiva necessidade por fama, levou Freud cada vez mais longe em um labirinto de erros.” A psicanálise foi, quase toda ela, fundamentada sobre gravíssimos erros médicos, de Freud e de Jean-Martin Charcot, que era neurologista. Mas a grande capacidade de fantasiar, do pai da psicanálise, permitiu que fossem postos os alicerces para o que viria depois – principalmente com o suíço Carl G. Jung (a quem Freud, num primeiro momento, elogiava, e depois, em vendo-se contrariado, demonizava), Jacques Lacan e outros tantos. Os discípulos de Freud foram os reais construtores da psicanálise. Suas novas descobertas e o aperfeiçoamento das teorias do velho mestre, transformaram-no em uma figura iluminada, cedendo-lhe os atuais créditos – como no caso de David que, não tendo matado nenhum Golias, recebe os louros, por encabeçar o exército de Israel, como líder e chefe, pars pro toto. Seja como for, o mérito de Freud em haver colocado o sexo no centro da ciência que cria estar criando, como dissemos, está assegurado, e é legítimo. Mas, olhando ainda mais distante, e para trás, nem isso é lá grande novidade. Conforme Camile Dumoulié, em Le désir (1999), e com relação à doutrina do Desejo, em Schopenhauer, as semelhanças entre as idéias do pai da psicanálise e as do filósofo do pessimismo são tão grandes e evidentes que Freud desiste de ler Schopenhauer, para não se achar repetindo conceitos, e nem ficar viciado num determinado argumento: “Freud”, ela diz, “parece haver reconhecido apenas de modo reticente a sua dívida para com Schopenhauer, e disse a esse respeito que parou até de lê-lo tamanha a semelhança entre seus pensamentos”, e mais adiante: “Embora marcado pela filosofia de Schopenhauer, Freud fez o possível para estudar o desejo com menos apriorismo finalista e com mente positiva”. Atrelada a tal doutrina, de Schopenhauer, está a teoria da sexualidade infantil e da sedução (Verführungstheorie), de Freud, uma das suas mais famosas e contraditas – e que ele abandonou depois de perceber que muitas das seduções “relatadas por seus pacientes eram fantasias do sexo feminino”. Em uma carta datada de 21 de setembro de 1897, endereçada ao seu amigo, o médico berlinense Wilhelm Fliess, Freud fala de sua perda de fé e desencanto para com a teoria de sedução. Aí, entre várias razões pelas quais ele não podia mais manter mantê-la, consta: “Então, a surpresa que, em todos os casos, o pai, não excluindo o meu, tinha de ser acusado de ser perversa.” No final dos anos 1970, porém, algumas feministas, preocupadas com o crescente abuso sexual infantil, reexaminaram e concluíram que Freud errara ao abandonar a teoria (F. Rush, Freud and the sexual abuse of children, 1977; The best kept secret: sexual abuse of children, New York: McGraw-Hill.1980; Herman, J. L . Herman, Father-Daughter incest, 1981). Na sexualidade infantil, dentre outras, o menino se exibe para a mãe (a primeira fêmea a ser seduzida), mostrando o seu pênis, ereto; é aí também que, e para a mesma finalidade, o pai se mostra como um rival: alguém que deve morrer para que a mãe, afinal, seja somente sua. O complexo de Édipo (Ödipuskomplex) segue a mesma trilha. São essas “lembranças recalcadas” que, incluindo os casos de abusos, na vida adulta dessa criança, podem promover algumas paranóias, algumas neuroses. “Será que cheguei a revelar-lhe, oralmente ou por escrito, o grande segredo clínico?” Freud pergunta a Fliess. E que segredo seria esse? Ele responde: “A histeria é a consequência de um choque sexual pré-sexual... ‘Pré-sexual’ quer dizer antes da puberdade, antes da liberação de substâncias sexuais; os eventos relevantes só se tornam eficazes como memórias.” A memória... É aí que se aninham – talvez sob escombros e outras edificações, numa metáfora arqueológica – os demônios do desejo, do medo, dos sentidos todos. Mesmo no adulto, como no caso do próprio Freud descrevendo o “problema de Dora”, tais demônios recalcitram: “O porta-moedas de Dora, que se abria no fecho do modo habitual, não era nada mais do que a representação dos genitais e seu jogo com eles; o fato de abri-lo, e enfiar os dedos no interior do porta-moedas era uma forma totalmente desembaraçada, ainda que claramente pantomímica, de anunciar o que ela gostaria de fazer, ou seja, se masturbar.” Dora, descontente com o caminho que seu tratamento está tendo, desaparece, deixa de ir às próximas sessões. Freud lamenta e, magoado, rememorando o final abrupto da relação terapêutica com moça tão atraente, diz, filosófico: “Ninguém, como eu, que evoca os piores males destes demônios indomados que habitam o seio humano, se tenta combatê-lo, pode esperar sair da batalha ileso.” Desejos, demônios.